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cidade ilha

Vitória é uma cidade estranha, aqui não é permitido esquecer. Do alto de uma ponte, com um virar de cabeça, você pode ver seu passado, presente e até conferir um pouco do seu futuro: onde gostaria de morar, ou trabalhar, o lugar que poderia escolher para o encontro do fim de tarde cinza num sábado de reencontros.

Sorte não termos neblina. No máximo a maresia que deixa o horizonte reticulado e cinematográfico, ou a chuva que apaga aos poucos o brilho da vista dos prédios e nos transporta daquele sentimento de boa vida permanente que a vista nos proporciona. Pairamos naquela superfície de concreto que não nos permite flutuar, nos crava no chão, nos faz pensar no que poderia…

Do alto da ponte, a chuva não nos permite ver aquele que fomos ou nosso futuro. Em Vitória, nossos corações não são os mesmos quando chove, não há felicidade por aqui. Não nos encontramos quando a chuva cai. Ficamos acuados, o noticiário nos paralisa. Seguindo o céu, nossos olhos ficam turvos, diminuem de tamanho, ficam parecidos com os daqueles que precisam conviver com a neblina, que precisam quase fechar os olhos para focar objetos à distâncias curtíssimas, gente que deve conviver com o frio e precisa fazer dele um aliado para sobreviver. O que é difícil quando se é adolescente e as amizades não suprem a necessidade de procurar respostas em caminhadas, música e cinema, na solidão de um quarto – cabeado com banda larga ou não.

trecho. leia tudo no final do mês, na monografia.

É quando tenho mais sono. Quando o cansaço é tão grande que sufoca como o peso no peito pós-quatro bolinhas tomadas em uma noite que não queria saber quem era, que estava fazendo, se falava com pessoas  que  não gostam de mim, que sinto esse frio que ouço tanto falar. Esse vento que não parece que bate, mas que desce aos poucos, trava pouco a pouco língua e estômago, transforma o órgão que sempre tive mais medo de machucar num labirinto congelado sem iscas de pão, muito escuro.