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Desde que estive aqui

Desde que estive aqui pela primeira vez – minto. Desde que coloquei as mãos em um livro pela primeira vez – quando mamãe lia seus Sidney Sheldosn e se irritava com a minha presença – oras, no meu quarto, o mais fresco da casa, enquanto lia tudo. Tanto que não me deixava perguntar, querer ou encontrar saída para o espaço que as férias preenchem em nossas vidas.

Quero o texto pelo texto, se posso ter algo que me diga que escrevi. Então, por favor, que venha. A linguagem assimétrica das minhas ideias, ideologias caducas – eu não sou marxista, combinado? Mas que venha em tom de paródia, se a intenção é descredibilizar alguma literatura, que venha em prosa, se é para eu estar alegre. Se é que posso ficar bem comigo ao escrever pouco mais de cem palavras. Não foi isso que disse, foi? Ontem dormi, uma noite turva, não me lembro de nada. Tive pesadelos? Ora o texto me matava, ora um gigante de palavras me engolia.

Ontem à noite comecei a beber. Bebi vodka pura, como nunca favia feito. Tomei vodka russa, eu que nunca imaginei poder experimantá-la – produto exportação, Quero uma vida toda fora do país. Talvez o texto em língua estrangeira resolva. Eu aqui, em listras, códigos que se observados fixamente não vou compreender. Bebi como se fosse feliz pela primeira vez. Nos últimos dias, uma meia luz, tenho tido vontade não só de beber, mas de me embreagar, da mesma forma como tenho tido vontade de fingir que não existo, apagar as palavras.

Ana sabe disso, essa minha amiga que guarda os escritos que escondia só para mim. Ana é minha leitora, Ana acende minha luminária. Sou um paraplégico desfuncional quando ela está por perto. Ela é só minha. Sou seu Sidney Sheldon, para Ana. Meu nome é Júlia, mas um dia, quando me disfarcei de ruiva, fui Sabrina e não soube o tanto que poderia se Amanda – aquela de Ugly Betty – ingênua, boa, high-style, burra. Queria de verdade era ser loura. Esqueça, nunca aprendi a andar de saltos – digo o mesmo sobre escrever. Eu queria mesmo era ser uma literatura, se serve de consolo para você.

Quando as luzes partem

Começou quando cobriu quase o país inteiro em luto após matar a mãe em uma jogada inesperada. Um apagão sobre as cidades dominadas por hordas de sombras. As ruas banhadas pelo neon das estrelas, que além de brilhar mais forte, cobriam com o fogo anunciado os morros da cidade.

Num descampado, no desertoFoto-A0354 banhado pelo vento e os barulhos da noite, se estivesse de olhos fechados, poderia sentir o estremecer da terra em exclamações quando o mundo, em sequência, começou a apagar. Mas, de dentro da sala escura, feito quem se prepara para o luto, o som seco da lâmpada de projeção já queimada anunciando o fim, suposto presságio do melodrama vindouro.

Daqui de cima, o abismo superior. Todas as ilhas esquecidas e entregues às sombras de uma noite completa. A exaltação periférica dos que olham para o horizonte e, no além mar, com mais clareza se distingue o infinito do abismo. A rodovia flutuante. As pontes não esquecem os que transitam. As pontes não existem quando o mundo apaga. Daqui de cima, nos morros da cidade, tudo brilha mais devagar.

No trânsito desarticulado o clima noir deposto pela chuva torrencial que varre a cidade e despista a desesperança num final convencional. A mesma chuva. Música para os créditos finais.

meninas

Roberta não aprende. Todo domingo as duas estão sempre iguais: o cheiro dos cabelos, os mesmos pedidos, a mesma descosideração.

Antigamente recebia os finais de semana como um vento renovador. A visita das meninas arejava aquela casa com gargalhadas gostosas e inconveniências. Abraços e beijos, declarações de amor. Roupinhas limpas e passadas…

Roberta sabe que não posso aos domingos, que não gosto do cheiro do creme para pentear, que é constrangedor ter as meninas por perto quando tenho que estar com outro alguém.

Aos domingos Marcos aparecia e forçado à convivência teve que se afetuar aos poucos, sem cobranças. Familiar, a afeição ecoou pela casa.

Tio Marcos, me compra o salão de beleza da Susi?

velotrol

O corpo range como algema presa. Seco, pendura no cabide as blusas molhadas após quarar: quatro horas e o sol não se foi, as manchas persistem, são provas de que tudo permanecerá. Tudo está intocado: hematomas, nódoa de bananeira.

Cobre a fina superfície do travesseiro com a fronha multicolorida. O dia brilha, o filme volta num plim-plim irrempreensível. O dia é lindo e banhado ao som de cachoeira – disseram que não havia nada para observar além do som da cachoeira.

Quando era criança, lembrou anos mais tarde, o grande sonho era ter um velotrol. Descer as ladeiras embalado, violentar os joelhos violentados, arrancar a casca dos ralados quase cicatrizados. Hoje sabe que o corpo dói como algema enferrujada quando lembra do pai contar:

faz-se um furo cilíndrico no caule da bananeira e enfia-se o pinto, enrigecido, entumecido e jovem, aniquilado. as manchas de nódoa na roupa podem dununciar, sendo assim, fique nu em pelo.

Com o tempo toda a brincadeira faz sentido. Tornou a desejar o velotrol com todas as forças, mas não havia mais explicação. Eram tempos de pipas e bicicletas. Mais uns meses e nada mais. A gente sente dor aos oito anos, mesmo que digam o contrário. E a infância passa.

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primeiro: o demônio urge ao pé do meu ouvido direito, finge que não, mas me leva para longe.

segundo: o caminho de volta para casa é sempre mais longo nas madrugadas de sábado. tiro o tênis e compro uma lata de coca.

terceiro: esquecer o bolo de laranja no forno antes de dormir.                                      ps.: asfixia no começo da manhã, cheira à queimado.

quarto: levar para sempre as recordações numa sacolinha amarrada à cintura. um patuá envenenado para chamar de meu.

quinto: não prometer atualizações em férias que prometem ser longas e angustiantes. improdutivas, mas como nunca.

escadas

A alça da mala arrastava pelo chão empoeirado. As paradas do ônibus e o ar condicionado, complemento perfeito para empestear a alma com o cheiro dos cigarros. Não via nada ao seu redor, mesmo com os acordes rasgados culminando, destruindo seu aparelho auditivo, mesmo com toda a pressa anti-moderna da rodoviária: mães e tias, bermudas florais e regatas, estudantes esperando para embarcar e enterrar as falsas responsabilidades pelos próximos dias; nada disso afligia, mesmo as figuras estranhas, nem a desconfiança. Seguia em linha reta, sem reagir aos empurrões a ao volume de pessoas que assim como ele, remavam contra a maré, sempre, contra a maré…