metâmeros

1
Foi deixando a casa desarrumada pra você se ressentir que parti, novamente cidadão disso tudo que você costumava xingar de mundo, esses tantos obséquios que me incomodaram por tanto tempo e por tanto tempo me mantiveram preso a um cativeiro. É como todos diziam, seu apartamento é muito francês – Não dá a impressão que estamos em um daqueles sobrados de Paris? – todos que não foram a Paris diziam. E assim, eu não conseguia me desgrudar, desprender minhas mandíbulas de cada centímetro azulejado do apartamento, dos espaços ventilados durante todas as horas do dia; diariamente ventilados, mesmo no Centro. Enfim, uma hora tive que partir. Não dei a mínima para a sacanagem que se instalava no quarto, não fiz questão de recolher um rascunho, de buscar os tantos diários que acumularam tudo isso que minha mãe chama de falta de juízo. Fui, simplesmente fui, deixando levar pela brisa que atravessou a porta comigo.
2
As ruas às vezes são infernais aqui. Eu tinha me esquecido de como a cidade respira lá pelas quatro da tarde nos domingos, é paradoxalmente complicado observar como tudo se movimenta devagar em dias assim. – A rua? é daquelas curtas, finas, familiares, interioranas, das que permitem ouvir a respiração por trás das paredes. É um morrinho um pouco íngreme, chato, cheio de areia. No ponto para tirar a respiração depois de algumas tragadas no cigarro logo pela manhãzinha. E no topo do morro fica sempre um cara. Entre os 60 e 70 seria um drop-out. Talvez possamos considerá-lo um desses caras que ainda não sei definir. Sei que nas raras vezes que desci ou subi esse morro ele estava lá, me aporrinhou, pediu um voto, um cigarro.
3
Ainda no apartamento – quase – francês, uma coisa que me enche a cabeça quando estou num daqueles porres dissecados a vinho, sim, dissecados a vinho, são lembranças de fotografias. O apartamento era cheio das mais transparentes fotografias. Elas seguiam em linhas paralelas que iam de ponta a ponta dos cômodos. Quando falo de transparência quero dizer que elas eram simples. Ao menos para todos nós eram simples.
Eram quatro residentes paralelos.

Que se cruzavam nas fotografias.

Algumas delas eu me lembro bem.
4
Eram quatro fotografias de uma época em que deixávamos espalhados pelos cantos da casa vários cinzeiros, e juntávamos incessantemente guimbas e guimbas de todos os nossos cigarros de filtros coloridos – num dia resolvemos jogar tudo no vaso sanitário e ver a reação da água se esvaindo pela privada como nossas vidas. Todo dia da mesma forma com as nossas vidas – da mesma forma que fazíamos com as guimbas e uma porção de cinzas na privada vazando e rodando rodando rodando como os cigarros e as cinzas grudadas nas laterais da privada. As fotos – são as fotos que mais me marcam e não parava de olhá-las quando estava no apartamento e agora imagino. Lembro disso pensando que nossas vidas estão descendo pela privada.

5
Descia as escadas e levava consigo a imagem sobrenatural de estrelas negras e fixas em um patamar branco e ondulado, sentia o cheiro da maresia inundar todos os pensamentos infantis que fizeram daqueles locais e momentos mais e mais familiares, mais acéticos a uma vida jamais imaginada, consolidada. As pequenas estrelas eram apenas sonhos esparsos, momentos de divagação; das corridas matinais em busca disso, daquilo, de um ou vários momentos que não se intercalam a lembranças quaisquer, estavam delimitadas por sussurros e constatações de prazer, lembranças levadas ao vento, estimuladas a base de endorfinas e esperança. Desceu assim as escadas, ladeiras e leitos. Calava ao rugido dos pneus, transbordava inspiração ao partir, abandonar, imaginar citações imaginárias e perspectivas para o que havia ocorrido. Conseguiu conceber estrelas negras, fixas na infinitude puramente alterada da claridade do dia. Avançou o sinal, dormiu no silencio, confundiu-se com o sol.

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