herbáceo.
(as flores o engoliam)

Despertou assustado com o florescimento repentino das margaridas por todo corpo, pelo quarto. Sentia o néctar das flores invadir todos os poros – pêlos e sentidos. Estava imóvel, assustado, permaneceu na cama e deixou-se levar pela confusão mental que as flores faziam sentir. Os badulaques do quarto, as páginas dos livros, todas as letras se transformavam em pétalas de sabor amargo, sabores naturalmente apaixonantes.
Via o corpo transformar-se numa imensidão branca. Um corpo branco com bolas doces e amarelas, macias. Aflito, em uma onda de desespero, tentou arrancar as pequenas margaridas do corpo, margaridinhas, como as da infância, uma vingança. Tentava extraí-las, arranhava a pele extraindo às raízes. Doía, doía muito todas as flores arrancadas, os pêlos controversos, o acolchoado, o corpo agora era mais macio, cheiroso e fresco; debilitado, todos os movimentos faziam doer. Não conseguia, cresciam continuamente, acima sempre, sempre acima, incessantemente, como advérbios, os gerúndios que rodeavam a cabeça. Os tentares, não conseguia. Simples.
Tentado, não parava de se contorcer, tatear o controle remoto no chão, sentia a pequena selva de todo ambiente, transformara-se numa planta. Acariciava, acariciavam-se, flores nos dedos, havia uma liberdade maior, o sentir, a ponta dos dedos, conseguiu, imaginou o controle, segurou firme, era uma planta agora também. Lançou ao ar, caiu, o estrondo sufocado, viu a TV ligar, o líquido ensolarado do controle remoto. A substância dourada pelo chão, regando, adubando o plantio, cresceram assustadoramente, margaridas gigantes ocupando o quarto, as cusparadas da televisão, flores para todos os lados, a redoma branca, inundava o quarto, o plasma agora duvidoso da tela, todas escorriam pelas caixas do aparelho, agora verde, uma erva. Via os móveis em vida, a mesa e o computador não mais existiam, o guarda-roupa expelir a seiva, prova da sobrevida. Tentou levantar, crescer junto às margaridas, debatia-se na cama, tentava se desprender, alargar os sentidos, enxergar talvez um novo mundo com novos olhos palpitantes. Todo o mundo sentia margaridas, saboreava borboletas. Com dor e fúria se livrou da cama, as raízes penduradas arrastavam, arranhavam a relva, morreria agora? De pé, para caminhar até o banheiro, tentava imaginar sua nova aparência, cuidadosamente para não feri-las, limitava seu contato ao chão, já não haviam paredes. Um plantio embaçado pelo contato-quase-sexual-flor-com-flor. Só via margaridas, os espelho cheio de margaridas, tentava arrancá-las, ora reflexos. Ânsia de vômito e delírio. Preso entre a folhagem debatia-se, procurava um rumo, a saída. Num esforço tamanho sentiu tudo se desintegrar. Agora tudo era branco.

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