Desajustados.

Eu queria ter uma máquina fotográfica digital. Qualquer máquina fotográfica já serviria, mas a digital seria excelente porque com ela poderia colocar as fotozinhas aqui no blog e em outros lugares. Se eu tivesse essa máquina vocês veriam como anda minha vida. Os milhões de discos esparramados, as roupas jogadas em todos os cantos, jornais fechados, revistas para todos os cantos, o pó em todos os lugares, copos, guimbas de cigarro. Meus livros desencontrados, perdidos em todos os cantos do quarto, da sala.  Se eu fotografasse a cozinha veriam a quantidade de merda que ando comendo. Sabe aqueles mosquitinhos que ficam no lixo? Minha cozinha está cheia deles. Se eu tivesse essa máquina talvez poderia fotografar a música que está rolando na minha vida – será que é cliche dizer que ouço o Dark Side of The Moon e as músicas do disco foram feitas para serem fotografadas? Talvez também pudesse fotografar o cheiro de/o sexo que ainda está impregnado em todo o quarto, e já faz tanto tempo. Talvez não seja surpresa dizer que daqui a pouco tenho que me ausentar, que irei trabalhar, que abandonarei o Haroldo por três dias e oito horas. É tão difícil ir trabalhar, tomar banho para ir trabalhar, me pentear para trabalhar, colocar os livros na bolsa, ligar o mp3 para ir trabalhar. Talvez tudo fique assim meio neurótico como em Os Sobreviventes: Por que dar a bunda por oito horas diárias para uma multinacional para chegar em casa e sentar numa poltrona de couro, descansar os pés em uma mesa de madeira indiana? Não, não quero ser rico ou sentar numa cadeira de madeira indiana. Talvez seja pecado só querer viver do pó e admirar os bonequinhos, carrinhos, as miniaturas da nossa vida. Talvez viver de pequenas coisas seja o essencial. Talvez ajudar, lutar (com toda pluralidade da palavra) seja o essencial. Deve ser a única coisa inevitável, magnífica. Lutar, mesmo para se entregar no final. Essas coisas. Faço uma matéria sobre o câncer e não me canso de fumar. São contradições. Descobri que tenho 75 vezes mais chance de desenvolver um câncer pois não durmo direito, não como direito e tenho uma relação estreita com o tabaco. Aí me vem a pergunta: e daí? Talvez, como dizem alguns, morrer seja a solução, morrer seja o caminho, mas que caminho? Nem para os questionamentos filosóficos sobre a existência de Deus, um paraíso. E o limbo? Talvez, se isso tudo realmente existir, eu vá para o limbo. Ainda me considero criança, não quero, não pretendo, não vou crescer, ainda não saí da barriga da minha mãe, o limbo me espera e não tenho medo, fui à igreja mas não aceitei o meu batismo, ainda resido num útero, talvez seja meu quarto, meu apartamento, minha vidinha doutrinada, minha vidinha que não quero que pare, que não vai parar enquanto eu estiver nessa. Vou continuar a colecionar os filmes, principalmente os livros. Minha fuga é viver dentro dos livros. Queria ter tempo para viver integralmente dentro dos livros, procurar as respostas nas palavras, será que é tamanha insensibilidade estar mais aí para os livros. Eu amo as pessoas, mas amo mais os meus livros. Peço desculpas, talvez eu seja um desses desajustados, talvez eu me transforme num crítico, talvez eu prefira ser um crítico a ser assentado, talvez, e mais uma vez talvez, eu seja um desses desajustados, desses caras que aparecem em filmes americanos e vivem digerindo mescalina para sobreviver, que se entregam ao ópio, talvez eu esteja assim, vivevendo por viver, talvez não seja saudável, politicamente, socialmente correto mas não vou me desprender disso, vou ser assim e não me cansarei de ser assim.

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3 Respostas para “Desajustados.

  1. gostei muito.

    intenso.

  2. Além de trabalhar na multinacional Vale o menino Haroldo agora contribui com a mídia burguesa da Rede Gazeta afiliada da Globo… tsc tsc

    O que toca no meu mp3?
    rsrs

  3. bizarro!

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