tamanho amor

então foi assim:
comprei aquele carro azul céu que ela tanto falava e eu, também tanto falava:
meu deus, de onde você tira essa de azul céu? não existe essa de azul céu. pô, não dá para falar como pessoas normais: azul claro, azul bebê, essas coisas?
e me irritava, agonizava com seu olhar melancólico e complacente quando automaticamente eu partia para a ignorância. nada me dizia que deveria tratá-la com mais respeito embora, tenha comprado o carro azul que ela tanto desejava.
e foi pelo menos aterrador o momento que a chamei, ou melhor, que ordenei que aparecesse na varanda para ver o que trazia, e como foi constrangedor perceber que ela me amava, que ela era capaz de beijar meus joelhos suados, o pé mal-cheiroso.
como poderia satisfazê-la mais? berrando, chutando, serrando minhas mãos em suas costas?
verônica morreria de prazer se houvesse pensado nisso.
então foi assim:
decidi dar um fim.
não poderia ficar preso e dominado todo esse tempo, preso por pensamentos sujos como os dela. não havia alguma hipótese diferente, acreditava piamente que ao menor vacilo toda sua brandura e mansidão uma hora se virariam contra mim com uma fúria insana.
decidi largar.
ela ainda estava absorta com seu carro “azul céu” – como alguém pode chamar uma cor de azul céu? Ela ainda paquerava seu carro como jamais tinha visto alguém fazer. santo, já percebia que havia egocentrismo em minhas palavras, meus pensamentos. verônica passava o rosto no volante, cheirava o assento que estive ou tudo não passava de sobressaltos de imaginação? estaria vacilando, bebendo demais? a doce e frágil menina não passaria de uma cruel mulher me cevando para um golpe fatal?
Não não.
não poderia pensar nisso. não existia um pingo de verdade no que pensava. havia bebido vinho demais. ela me amava, amava como nunca havia visto alguém amar alguém.
“mais idolatrado que buda” – dizia tati no trabalho – não poderia ser verdade.
não havia verdade.
Então tinha decidido romper, fugir sem ser descoberto, mudar para a zona limpa da cidade, trocar o número do celular e tudo mais, resolvi fugir e não enlouquecer com tamanho amor.

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