afternoon crash car

velotrol

Dezembro 22, 2008 · 3 Comentários

O corpo range como algema presa. Seco, pendura no cabide as blusas molhadas após quarar: quatro horas e o sol não se foi, as manchas persistem, são provas de que tudo permanecerá. Tudo está intocado: hematomas, nódoa de bananeira.

Cobre a fina superfície do travesseiro com a fronha multicolorida. O dia brilha, o filme volta num plim-plim irrempreensível. O dia é lindo e banhado ao som de cachoeira – disseram que não havia nada para observar além do som da cachoeira.

Quando era criança, lembrou anos mais tarde, o grande sonho era ter um velotrol. Descer as ladeiras embalado, violentar os joelhos violentados, arrancar a casca dos ralados quase cicatrizados. Hoje sabe que o corpo dói como algema enferrujada quando lembra do pai contar:

faz-se um furo cilíndrico no caule da bananeira e enfia-se o pinto, enrigecido, entumecido e jovem, aniquilado. as manchas de nódoa na roupa podem dununciar, sendo assim, fique nu em pelo.

Com o tempo toda a brincadeira faz sentido. Tornou a desejar o velotrol com todas as forças, mas não havia mais explicação. Eram tempos de pipas e bicicletas. Mais uns meses e nada mais. A gente sente dor aos oito anos, mesmo que digam o contrário. E a infância passa.

Categorias: Literatura · arte · conto

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