O corpo range como algema presa. Seco, pendura no cabide as blusas molhadas após quarar: quatro horas e o sol não se foi, as manchas persistem, são provas de que tudo permanecerá. Tudo está intocado: hematomas, nódoa de bananeira.
Cobre a fina superfície do travesseiro com a fronha multicolorida. O dia brilha, o filme volta num plim-plim irrempreensível. O dia é lindo e banhado ao som de cachoeira – disseram que não havia nada para observar além do som da cachoeira.
Quando era criança, lembrou anos mais tarde, o grande sonho era ter um velotrol. Descer as ladeiras embalado, violentar os joelhos violentados, arrancar a casca dos ralados quase cicatrizados. Hoje sabe que o corpo dói como algema enferrujada quando lembra do pai contar:
faz-se um furo cilíndrico no caule da bananeira e enfia-se o pinto, enrigecido, entumecido e jovem, aniquilado. as manchas de nódoa na roupa podem dununciar, sendo assim, fique nu em pelo.
Com o tempo toda a brincadeira faz sentido. Tornou a desejar o velotrol com todas as forças, mas não havia mais explicação. Eram tempos de pipas e bicicletas. Mais uns meses e nada mais. A gente sente dor aos oito anos, mesmo que digam o contrário. E a infância passa.


3 respostas Até agora ↓
bolotas // Dezembro 25, 2008 às 4:51 pm |
qual a diferenca entre velotrol e velocipe?
Rafael // Dezembro 27, 2008 às 11:49 pm |
Esse texto me lembrou os sabores da inocência de ser criança.
Meu velotrol era azul e vermelho, ele me agradava e eu vivia gritando pra minha irmã: “-Dá ré pra trás!”
demm charbak // Dezembro 28, 2008 às 11:53 pm |
a infância é baseada nisto, há aquela doçura da inocência e da verdade. deve ser por isso que lembramos desta época com os olhos cheios d’água.